04 março 2015

Carta as minhas filhas - Amamentação

Antes de vocês chegar, eu me preparei. Tomei banho de sol, lavei os seios com esponja vegetal, fazia o movimento que, segundo a médica, ajudaria a formar o bico...todos os dias.
Como eu desejava amamentar! 
Busquei em diversos lugares posições para amamentar gêmeas e já tinha até um lugar especial. Mas não era aquela poltrona linda amarela que a mamãe viu na loja não.. era o sofá!
Sofá filhas, porque a mamãe e o papai não tinha... não ficavamos em casa e a cama e as cadeiras sempre quebraram um galho. Mas quando vocês estavam chegando, compramos (obrigada vovô!). Pensando já no nosso momento...
Enfim vocês chegaram! Foram longos meses de espera e ansiedade.. que dia díficil! Mas muito feliz! Mal sabia eu, que as coisas só estavam começando...





Primeiro veio você, Clarinha.. pequena e frágil, que nem o peito conseguia pegar. Você era do tamanho do braço da mamãe, assim...do cotovelo até o punho. Pequenina! Te acalentei, e você finalmente sugou.
Para minha surpresa, todo aquele tempo de preparação não resultou em nada. Eu não tinha, sequer, colostro! Sua vida naquele momento dependia única e exclusivamente do meu leite... de mim! 
Vi as enfermeiras te furando centenas de vezes, filha. Chamamos de Destro, um aparelho que fura seu pé para coletar sangue e medir sua glicemia. Não podiamos chegar a 50, senão você iria para a UTI, mas, chegamos a 52! 

Não estava acreditando no que estava acontecendo. Meu próprio leite podia te ajudar. Se acontecesse alguma coisa com você, eu iria me sentir culpada para sempre!

Depois veio você, Sosô, minha boneca faminta. Tratou logo de encontrar o peito e mamou. Com muita força e vontade, ajudando a mamãe a produzir ainda mais leitinho para ajudar sua irmã... pena que não saia nada e você ficava nervosa.

Oba! Desceu um pouco de colostro...
Nunca vou esquecer das infinitas horas de sono das duas... era fome. Vocês só queriam um tetê quentinho e a mamãe não tinha para dar. 
Olhei as outras mães amamentando, seus filhos dormindo de barriguinha cheia, e isso só fazia eu me sentir a pior mãe do mundo. Porque eu não conseguia?

No primeiro dia de vida de vocês a mamãe não dormiu, e vocês também não...
E veio as feridas, sangue e estresse.
Senti raiva de mim. As enfermeiras trouxeram pomada, seringa para a mamãe usar como bomba manual. 
As pessoas bem que tentaram... O dia amanheceu e tudo se repetiu. Já faziam mais de 72 horas que eu não dormia, sem repousar após o processo cirurgico. Clara correndo risco de ir para UTI.. Perdi as contas de quantas mãos apalparam meus seios em busca de ajudar...e nada.

Me comprometi a salvar minha filha de ir à UTI. Bebi muita água, chorei, senti dor, sangrei, quis gritar dentro da maternidade mas consegui. Destro apresentou 60, e enfim...adeus UTI.

Mas ainda choravam muito... Eu ouvia a barriguinha de vocês roncar.. 
Ás 4 da manhã, aos prantos, pedi pra que alguma coisa fosse feita. Fosse com leite materno, artificial, eu não aguentava mais aquela situação. Vocês estavam sofrendo!
Me disseram que leite materno não era possível. Até que uma enfermeira, que viu que eu não dormia a 4 dias, deu - escondido - uma seringa de 20ml para cada uma de NAN. 

O choro foi cessado e o sono chegou. Dormiram até 8 da manhã. Aquilo foi um sonho pra mim... e eu adormeci. Era dia de ir embora..
Saimos de lá, com receita médica para comprar leite de fórmula.

Eu não queria aquilo... não foi pra isso que me preparei. Cadê nosso momento mágico? 
Vocês começaram a perder peso - o pouco que nasceram. E a pediatra pediu para que fosse complementado.

A mamãe teimou muito e continuou dando o peito...mas as fissuras ficaram graves e o bico do seio descolou. Quanta dor eu senti! O colostro não aumentava e o leite não descia.
Me rendi a primeira mamadeira de 30ml que vocês tomaram tão rápido. e dormiram... dormiram muito bem! 

Sabe filhas, teve madrugada que eu chorava dando pra vocês. Já joguei a mamadeira longe e dei o peito. Mas não adiantava, não mata a fome de vocês..
Por isso o papai de vocês é quem dá a mamadeira quando está em casa. Eu não gosto, e não consigo. Me dói o coração.

Eu estimulei até o 3º mês de vocês, mas não deu. Teve vários fatores como a internação da Clara, estresse, cansaço, dor... que não ajudaram.
Fui muito julgada, princesas. As pessoas da rua olhavam de cara feia quando viam nós dando mamadeira a vocês...

Mal sabiam, que todo amor ali estava. Damos a mamadeira como prova maior de amor. 
Não gosto mas foi o único modo que encontramos de ainda sermos 3...